A HISTÓRIA DO TELEFONE EM SANTA CATARINA
1. O TELEFONE NO BRASIL
Logo após a chegada de D. Pedro II ao Brasil, em 1877,
foi inaugurado o serviço telefônico com a instalação
das primeiras linhas, interligando o Palácio da Quinta da Boa Vista (atual
Museu Nacional) com as residências dos Ministros de Estado, utilizando telefones
montados no Rio de Janeiro pela "Western and Brazilian Telegraph" - Cabo
Submarino.
Despertando o interesse do comércio e da indústria,
antes que findasse 1877, a casa comercial "Ao Rei dos Mágicos",
na rua do Ouvidor nº 116, da firma Rodde & Chaves, começou a fabricar
telefones seguindo as descrições da gazeta francesa "Lumière
Electrique", e estabeleceu uma linha telefônica pública dêste
estabelecimento ao Corpo de Bombeiros.
A primeira concessão para construir e explorar linhas telefônicas no
Brasil foi dada, em 15 de Novembro de 1879. através do Decreto nº 7539,
a Charles Mackie, que a teve caducada. Mas, tendo formado, em 13 de Outubro de 1880,
em Nova York, uma sociedade por ações denominada "Telephone Company
of Brazil", Charles Paul Mackie requereu nova concessão, que foi obtida
em 17 de Abril de 1881 pelo Decreto nº 8065, para prestar serviço telefônico
na Corte. Em seguida a esta concessão, o Imperador baixou a Circular de 11
de Agosto de 1881, dando ao Governo o direito de conceder a instalação
de linhas telefônicas, mesmo que para uso particular das localidades, uma
vez que estas se achavam em iguais condições às linhas telegráficas,
que pertenciam ao domínio exclusivo do Estado.
Novas concessões se seguiram, e tendo surgido os primeiros problemas relacionados
com a instalação e exploração das linhas, o Imperador
baixou o Decreto nº 8453 A, de 11 de Março de 1882, estabelecendo as
bases para a concessão de linhas telefônicas.
Com a proclamação da República e com as Constituições
que se seguiram, o poder para a exploração dos serviços ficou
dividido entre o poder municipal, quando o serviço telefônico se restringia
ao município, o poder estadual, quando o serviço fosse entre municípios
do estado, e o poder federal, quando o serviço fosse interestadual e internacional.
Procurando institucionalizar as telecomunicações, o Governo Federal,
em 1962, resolveu criar o Código Brasileiro de Telecomunicações,
através da Lei nº 4117, de 27 de Agosto de 1962.
O Código Brasileiro de Telecomunicações fixou uma política
e criou um orgão para executá-la, o Conselho Nacional de Telecomunicações
- CONTEL, que através de sua Secretaria Executiva, o Departamento Nacional
de Telecomunicações - DENTEL, elaborou o Plano Nacional de Telecomunicações,
fixando as normas nacionais, que promovem o desenvolvimento, fiscalizam as concessões
e propõem as tarifas a serem pagas pela execução dos serviços,
na área da Telecomunicações.
Os serviços telefônicos, porém, não acompanhavam o ritmo
de desenvolvimento do país. Com o crescimento das cidades e da população,
"exigia-se maior número de comunicações e as centrais
telefônicas passaram a operar com carga de tráfego superior ao seu
dimensionamento."
Em Setembro de 1965 foi criada a Empresa Brasileira de Telecomunicações
- EMBRATEL - com o objetivo de instalar e explorar os grandes troncos de microondas
integrantes do Sistema Nacional de Telecomunicações, e as suas conexões
com o exterior. Para executar os programas da EMBRATEL, foi criado, então,
o Fundo Nacional de Telecomunicações.
Um ano depois, o Governo estatizou a Companhia Telefônica Brasileira (C.T.B.)
e suas associadas,a Companhia Telefônica de Minas Gerais (C.T.M.G.)
e a Companhia Telefônica do Espírito Santo (C.T.E.S.), pertencentes
à Brazilian Traction, de capital canadense, que funcionva no Brasil desde
1912.
Em 13 de Fevereiro de 1967, o Governo Federal, através do Decreto-Lei nº
162, transferiu para a União o poder de explorar os serviços telefônicos
dos municípios.
E neste mesmo ano extinguiu-se o Ministério da Viação e Obras
Públicas e foi criado, em seu lugar, o Ministério dos Transportes
e o das Comunicações, que ficou constituido pelo CONTEL, DENTEL, ECT
(Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos) e EMBRATEL.
2. O TELEFONE EM SANTA CATARINA - PARTE 1
OS PRIMEIROS PASSOS
O telefone não tardou em aparecer em Santa Catarina.
Um ano após a instalação dos primeiros aparelhos
no Brasil, Desterro (antigo nome de Florianópolis) teve o privilégio
de presenciar a primeira experiência feita com o telefone em Santa Catarina.
Privilégio este que se não fossem duas pequenas notícias em
dois jornais locais, dos três que existiam, "O Despertador" e "O
Conservador", o fato passaria despercebido.
Na noite do dia 26 de julho de 1878, durante o Governo do Dr.
Lourenço Cavalcanti de Albuquerque, o Sr. Cavalcanti, chefe da estação
telegráfica da Capital da província, convidou a população
para assistir a experiência, que foi feita ligando a estação
telegráfica, no Largo do palácio, à estação do
Estreito, o que equivalia, mais ou menos, a dois mil metros.
Várias pessoas tiveram a oportunidade de falar ao aparelho e todos que ali
estavam presentes puderam ouvir as perguntas e as respostas transmitidas de forma
clara e distinta, "como se estivessem conversando n'uma distância de
20 a 30 metros".
Segundo os jornais, o Sr. Cavalcanti tencionava fazer uma nova experiência entre
a estação do Estreito e a de Laguna, por ser a distância maior,
porém, não conseguimos comprovar se o teste foi feito.
Após este primeiro contato da população com o telefone, o desenvolvimento
da telefonia em santa Catarina seguiu a passos lentos e de forma precária.
A primeira concessão, para instalar linhas telefônicas no Desterro, foi
dada a Arthur Teixeira de Macedo através do Decreto Imperial nº 8.458,
de 18 de Março de 1882, de conformidade com as bases aprovadas pelo Decreto
nº 8.453 A, que estabelecia as cláusulas do contrato. segundo este Decreto,
a concessão era de 15 anos, durante os quais não poderia ser autorizada
empresa idêntica a se estabelecer dentro da mesma circunscrição.
Examinando os jornais da época, apesar da maioria não ter edições
periódicas, não existe neles qualquer menção a respeito,
seja da concessão, seja de alguma tentativa de assentamento de linhas telefônicas;
o que nos leva a crer que a concessão tenha caducado, no máximo, depois
de um ano da publicação do Decreto de concessão, segundo a
cláusula 16ª, que dizia:
"Caducará a concessão:
1º Si o assentamento das linhas não estiver começado dentro do
prazo de seis mezes, contados da publicação do respectivo decreto.
2º Si dentro de um anno contado da mesma data não se tiver concluido
o assentamento das linhas".
Corroborando o caduamento da concessão está o fato de que só
a 24 de Março de 1884 foram instaladas as primeiras linhas telefônicas
em Santa Catarina, na Capital, ligando vários orgãos provinciais.
Os aparelhos do sistema Adler, os mais aperfeiçoados da época, foram
instalados no palácio da presidência, na tesouraria geral e provincial
e na secretaria da polícia, sendo que o palácio da presid~encia servia
como estação central das linhas, equipado com um comtador, mediante
o qual as estações podiam falar entre si alternadas ou simultâneamente.
Os telefones encomendados pelo então Presidente da província, Dr. Francisco
Luiz da Gama Rosa, tiveram problemnas nas suas instalações, pois não
vieram acompanhados das instruções orientadoras do fabricante, além
de que não existia na cidade nenhum conhecedor de telefonia. Por fim, depois
de estudos e tentativas chegou-se a um resultado favorável graças
a dois empregados do telégrafo do Estado, os Srs. Wernek e Lima.
Segundo "O Despertador" não era preciso "fallar alto para
que se ouça nitidamente as palavras, podendo, distinguir-se perfeitamente
as pessoas que fallam, pelo timbre da voz peculiar a cada uma.
Todos os ruidos produzidos nas proximidades do apparelho, como risos, sons musicaes,
etc, são transmittidos fielmente pelo instrumento".
O fato da insatlação dos telefones tomou uma certa notoriedade quando
o jornal "Correio da Tarde", usando o telefone como pretexto para criticar
a administração governamental, começou uma peleja com o jornal
"O Despertador" que elogiava o procedimento do Dr. Gama Rosa. enquanto
o "Correio da Tarde" dizia:
"ainda mesmo que a província estivesse nas melhores condições
possíveis, um administrador sensato e que compenetrasse do alto cargo de
que se acha revestido, não mandaria assentar linhas telephonicas nas repartições
públicas, por ser uma cousa completamente inútil, de mero luxo aqui".
"Mas o que s. ex. queria com os telephones era uma distração para
si e os seus meninos; alcançou o que ardentemente desejava; está satisfeitíssimo.
Que digam as repartições públicas constantemente interrompidas
em seu expediente, com detrimento do serviço público, o quanto s.
ex. tem pagodeado!
Eis a grande vantagem que nos trouxe o telephone e pela qual o povo catharinense
deve exultar de contentamento."
O "O Despertador" rebatia:
"O seu funccionamento nos estabelecimentos públicos não pode pertubar
em cousa alguma os respectivos trabalhos, tornando-os, pelo contrário, mais
accelerados e promptos pela facilidade em se obterem informações immediatas.
Admira que se possa pensar diversamente.
E tanto é reconhecida a utilidade desse novo e admirável apparelho,
que elle está sendo geralmente adoptado em todo o mundo, servindo grandemente
às relações sociaes de todo gênero."
Diante de pontos-de-vista tão antagônicos, somente o tempo poderia ou
não dar razão ao procedimento do Dr. Gama Rosa e as opiniões
daqueles, que como "O Despertador", acreditavam, no valor do telefone.
E assim aconteceu quando em 6 de Outubro de 1887, através da Lei nº 275,
o Estado de Santa Catarina concedeu privilégio por 25 anos a Alexandre Grandemagne
e Gervásio Bortoluzzi para estabelecerem uma linha telefônica entre
Tubarão e Araranguá - a primeira linha interurbana que temos conhecimento;
quando, em 1903, a Câmara Municipal de Florianópolis concedeu a Valentim
Uriz Erdosaim, direito de uso e gozo de uma rede telefônica no minicípio
- não sabemos se a rêde foi instalada; quando, em dezembro de 1905,
todas as providências estavam sendo tomadas para estabelecer uma estação
telefônica, a primeira, em Painel, distrito de Lages, e, finalmente, quando,
em 1907, o serviço público da Capital reclamava a instalação
de aparelhos telefônicos nas repartições para dar maior rapidez
as providências por elas tomadas, confirmando assim, 23 anos depois,
as opiniões do "O Despertador".
Da concessão municipal a Valentin Uriz Erdosaim, em 1903, pouco sabemos, mas
provavelmente, deve ter caducado, cremos, 6 meses após assinado o contrato,
se nos basearmos no contrato de concessão de 2 de Julho de 1908, firmado
entre a Câmara Municipal de Florianópolis e o concessionário
Carlos A. Reis para instalação, exploração e monopólio
de uma rêde telefônica, nesta cidade, por 20 anos.
Por motivos desconhecidos, Carlos A. Reis transferiu a concessão em 17 de Agosto
de 1908 à firma Grossembacher & Trinks, de Joinville. A mesma firma,
que através da Lei nº 804, de 8 de Setembro de 1908, recebeu, também,
do Governador do Estado Gustavo Richard privilégio por 20 anos para instalar
uma rêde telefônica que, partindo do município de Joinville,
ligasse os municípios de São Francisco do Sul, Parati (atual Araquari),
Campo Alegre e São Bento.
Representada por Paulo Trinks em Florianópolis, a empresa em 4 dias, após
a transferência, já se manifestava através de jornal, oferecendo
seus serviços ao público, seja a particulares, associações,
casas comerciais ou estabelecimentos públicos. Em Janeiro de 1909, Florianópolis
já constava com 122 telefones instalados, número que pouco se alterou
até 1915, quando apareceu a primeira lista telefônica do município,
talvez a primeira do estado, aumentando para 257 assinaturas, quando Florianópolis
constava com, aproximadamente 40.000 habitantes.
Grossembacher e Trinks foram dois nomes que ficaram ligados à telefônia
do estado até 1932. Em Florianópolis, a sociedade Grossembacher &
Trinks desapareceu antes de 1915, surgindo a sociedade Paulo Trinks e Ehlke, que
a partir de 1º de Janeiro de 1922 passou a ser Trinks, Ehlke & Cia, quando
a Paulo Trinks e Paulo Ehlke juntou-se Henrique Stamm, e que se dissolveu em 12
de Julho de 1928.
Sobre a firma Grossembacher & Trinks em Joinville, os documentos que a Junta Comercial
do Estado dispõe, e que datam desde 1926, nos levam a crer que a firma continuou
até 1932, formada por Gustavo Grossembacher e Adolfo Trinks, quando se dissolveu.
Nossas imprecisões a respeito das sociedades comerciais se originam da falta
de documentos na Junta Comercial do Estado, que em 18 de Fevereiro de 1919 foi destruida
num grande incêndio, resultando daí o desaparecimento de todos os registros
de firmas comerciais desta Cidade.
Uma análise dos dados disponíveis sobre a empresa Grossembacher &
Trinks nos levam a presumir que Paulo e Adolfo Trinks formavam com Gustavo Grossembacher
a sociedade. Pouco antes de 1915, Paulo trinks saiu da firma, recebendo, por acôrdo,
a concessão municipal de Florianópolis, pertencente a Grossembacher
& Trinks, como pagamento de seu capital na empresa. Paulo Trinks fêz então
sociedade com Paulo Ehlke, e que mais tarde se transformou em Trinks, Ehlke &
Cia. Enquanto isso, em Joinville, Gustavo Grossembacher e Adolfo Trinks continuavam
com a sociedade, até 1932, de posse, agora também, de uma concessão
municipal, de 13 de Abril de 1917, desta mesma cidade.
Uma idéia do que era a telefonia, em 1913, em Santa Catarina
podemos ter no quadro abaixo, que não se modificaria muito nos próximos
14 anos, até a data da implantação da Companhia Telefônica
Catarinense, pelo Coronel Juan Ganzo Fernandez, em 1927. E que só Joinville,
Blumenau e Florianópolis "constavam com serviço telefônico
no estado, que era prestado por centrais locais, funcionando manualmente".
A implantação de um sistema telefônico intermunicipal
no estado se fazia necessário a medida que a população se expandia
e em face do aumento da economia. Tornava-se assim fundamenental as trocas de informações
entre os catarinenses para que houvesse maior integração social, mais
rapidez nas transações comerciais e maior agilidade nos serviços
da administração pública.
Tentativas foram feitas como a de 1914, a primeira, que através da Lei nº
1001, de 10 de Outubro, o Governador do Estado de Santa Catarina, Coronel Felipe
Schmidt concedia privilégio a José O'Donnel, ou empresa que organisasse,
para estabelecer linhas telefônicas entre todos os municípios do estado
por 20 anos, e a de 1924, em que o governador Dr. Hercílio Pedro da Luz concedia,
em 8 de Maio, à Companhia Tracção, Luz e Força de Florianópolis
privilégio exclusivo para instalar e explorar os serviços de telefones
urbanos e suburbanos em todo o estado catarinense, mediante a condição
de ligar os municípios à rêde geral. Porém, esta Companhia
desistiu do privilégio em 17 de Janeiro de 1927.
Mas foi neste mesmo ano de 1927, com a instalação da Companhia Telefônica
Catarinense, que se pôs fim a deficiência de comunicação
nos municípios e entre eles.
3. A HISTÓRIA DO TELEFONE EM SANTA CATARINA -
PARTE 2
COMPANHIA TELEFÔNICA CATARINENSE (C.T.C.)
No dia 27 de maio de 1927, o jornal "O Estado" publicou
uma pequena nota:
"A Empresa telefônica está restabelecendo as
suas linhas e examinhando os apparelhos, afim de regularizar todo o serviço.
É essa medida acertada, que visa satisfazer todos os assignantes, evitando
reclamações."
Com a Capital do Estado sofrendo com as irregularidades do serviço
da Empresa Trinks, Ehlke & Cia, bem como, todo o estado que não contava
com nenhum serviço telefônico em seus municípios e entre
eles, com excessão de Blumenau e Joinville, era chegada a hora do Governo
tomar providências necessárias para fazer Santa Catarina "falar".
A solução para o problema estava no estado vizinho,
o Rio Grande do Sul, onde atuava, desde o começo deste século, a Companhia
Telefônica Riograndense, de propriedade do Coronel Juan Ganzo Fernandez. "Empresa
próspera e sólida", que dotou Porto Alegre da única central
automática da América do Sul, se bem que em Rosário de Santa
fé, na Argentina, também existia o serviço automático,
mas bem menos aperfeiçoado; e que em julho de 1927 tinha, só naquele
estado, 214 localidades unidas por telefones e 1780 empregados. Era esta Empresa
com que Santa Catarina podia ter a chance de contar, com competência, tecnologia
avançada e solidez econômica.
Foi a convite do Governador do Estado de Santa Catarina, Dr.
Adolpho Konder, e do então Ministro da Viação, Dr. Victor Konder,
que o Cel. Ganzo Fernandez decidiu vir para Santa Catarina, fixando residência
em Florianópolis, de onde nunca mais saiu, afim de instalar uma Estação
rádio-telegráfica, na Capital, e, principalmente, de implantar um
sistema telefônico no estado.
Sua chegada ao estado não sabemos ao certo o ano, pois de acordo com as fontes
obtivemos duas datas: 1925 e 1927. Em todo caso podemos dizer que o Cel. Ganzo Fernandez
chegou a Santa Catarina por volta de 1926.
O primeiro passo dado foi a instalação da Estação rádio-telegráfica,
em Florianópolis, da Companhia Telefônica Riograndense, que realizou
toda a obra com sua própria aparelhagem, sem auxílio e sem subvenção
oficial. A inauguração da Estação se deu em 7 de julho
de 1927, na praça XV de Novembro, nº 8, tendo o Cel. Juan Ganzo Fernandez
como chefe da Estação e o Dr. Carlos Wendhausen como representante
da firma na Capital. À solenidade marcaram presença: Dr. Adolpho Konder,
Governador do Estado, acompanhado das suas casas civil e militar; Dr. Henrique Fontes,
secretário da Fazenda e Obras Públicas; Dr. Cid Campos, Secretário
do Interior; Medeiros Filho, Chefe da Polícia; Dr. Heitor Blum, Superintendente
municipal; Coronel Lopes Vieira; Coronel Abdon Arroxllas, Inspetor da Alfândega;
Coronel Mário Abreu, Delegado fiscal; Miguel Antomades, Vice-cônsul
da Grécia; Dr. Willy Hoffmann, engenheiro da firma Hoepcke & Cia; Dyonísio
Sousa, Chefe do serviço de rádio; Pe. Dr. Zartmann, Diretor do Ginásio
Catarinense, e outros.
Depois de vencer a concorrência pública para implantar um sistema telefônico
no estado, em 5 de Dezemmbro de 1927 o Cel. Ganzo Fernandez firmou contrato com
o Governo de Santa Catarina para que sua firma, a Companhia Telefônica Catarinense,
que não tinha nenhuma ligação com a Companhia Telefônica
Riograndense, explorasse os serviços de comunicação telefônica
e fonográfica intermunicipais, bem como o serviço telefônico
da Capital do Estado e seu Município, de acordo com a Lei nº 1578, de
21 de Setembro de 1927, por não mais de 35 anos.
Além de explorar os serviços intermunicipais, a Lei também permitia
à empresa explorá-los nos outros municípios do estado, desde
que:
"Parágrafo Único - Si a exploração fôr feita
dentro do mesmo município, cabe aos municípios conceder os respectivos
privilégios."
As primeiras cidades a serem ligadas à Capital, pela C.T.C. foram Itajaí,
Blumenau, Joinville e Laguna, através de linhas telefônicas, e Lages,
atarvés de rádio. A construção da rêde foi
iniciada em 22 de Dezembero de 1927, dirigindo-se para Laguna por São José,
Palhoça, Massiambu e Paulo Lopes, e para Itajaí, Brusque , Blumenau
e Joinville, passando por Biguaçú, Tijucas, Itapema e Gaspar.
Os serviços telefônicos e fonográficos passaram a funcionar em
meados de 1928, logo após estabelecida a primeira linha telefônica,
a Florianópolis-Joinville, unindo São José, Biguaçú,
Tijucas, Itajaí, Gaspar, Blumenau e as demais localidades intermediárias,
e também Palhoça. No ano seguinte, o estado já contava com
o funcionamento de 23 estações, ligadas entre si por uma rêde
de 800 km, atravessando 14 municípios.
à medida em que as linhas eram instaladas, iam sendo observadas as vantagens
oferecidas pelas comunicações telefônicas inter-municipais,
despertando com isso, especial interesse dos poderes municipais, e suas respectivas
populações, pela realização desses serviços nos
municípios que ainda não os possuiam.
Os fonogramas, que já eram conhecidos no Rio Grande do Sul, foram uma das novidades
trazidas para Santa Catarina pelo Cel. Ganzo.
Os fonogramas eram telegramas telefônicos. Obedeciam o mesmo sistema dos telegramas
comuns, mas com a diferenca de serem mais rápidos, custarem a metade
da taxa de um telegrama e de serem, absolutamente, sigilosos. Eles eram feitos da
seguinte maneira: entregava-se, no guichet da Central, o original, pagava-se a taxa
e o fonograma era expedido pelos aparelhos telefônicos para a localidade do
seu destino. Lá, era entregue ao destinatário, fechado.
Além dos fonogramas, as linhas intermunicipais se destinavam também
as "conferências telefônicas". A pessoa que desejasse falar,
de Florianópolis, com uma outra pessoa em Joinville, pedia a ligação,
de sua casa ou da Central. Previamente era enviado um aviso, por fonograma, à
pessoa com quem desejasse falar, marcando a hora para a conferência. A taxa
a ser paga era contada por minuto.
"Entre apparelhos de dois (2) assignantes até 20 kilometros de distância
por três minutos 1$000
Por minuto seguinte $400
Por mais 10 kilometros ou fracção por três minutos $200
Por minuto excedente $400"
De acordo com o contrato, o serviço na cidade e município de Florianópolis
só podia começar quando terminasse o prazo de concessão da
empresa telefônica que funcionava alí. Como o contrato da Trinks, Ehlke
& Cia foi assinado em 2 de Julho de 1908 e terminaria 20 anos depois, a contar
daquela data, é bem provável que a C.T.C. só começou
suas atividades pelas proximidades de Julho de 1928. É o que também
nos leva a crer a Mensagem do Dr. Adolpho Konder à Assembléia Legislativa
em 29 de Julho de 1928, onde ele declara:
"No município da Capital foi construida, e já se acha funcionando,
uma linha para a praia do Campeche, que serve ao aeródromo da Companhia de
Aviação Latecoère; e já estão sendo preparados
os materiais destinados à rêde urbana, que obedecerá ao systema
automático."
A implantação do sistema automático de transmissão em
Florianópolis só se concretizou em 1930, também fazendo parte
das obrigações contratuais. Entretanto, foi dado ao concessionário
a faculdade de e3stabelecer outros sistemas mais baratos, como uma medidad de manter
os
serviços funcionando, enquanto o sistema automático não
era ativado, e de favorecer a população que não tinha meios
de adquirir, tão cedo, um aparelho deste novo sistema que custava 15 vezes
mais que um aparelho de sistema manual.
O sistema automático foi outra das novidades introduzidas em Santa Catarina
pela C.T.C. Este sistema dispensava, definitivamente, o emprego de funcionários
para fazer as ligações. Bastava o ususário, tão somente,
girar o disco de algarismos de 1 a 0, junto ao aparelho, combinando-os de maneira
a obter o número desejado, para que a ligação fosse feita,
em poucos segundos. Para desligar era só tocar no gancho.
O sistema, segundo o Cel. Ganzo Fernandez, era "tão
perfeito que quando, porventura, algum defeito na linha se manifesta, uma lâmpada
se acende, diante do operador. A côr da luz que apparece varia conforme a
natureza do defeito. Assim, pois, si se trata de um curto circuito, a luz será
vermelha, por ex; si um fio desligado, azul, etc. No local em que o defeito se encontra
existirá uma pequena faísca da mesma côr da lâmpada
que deu o sinal".
Em 21 de Setembro de 1930, às 14 horas, na Praça
XV de Novembro, nº 8, cumpriu-se o contrato da Companhia Telefônica Catarinense
com a inauguração da Central Automática de Florianópolis.
Esta cidade passava a ser, então, a 20ª do mundo que possuia este serviço,
e a 5ª do Brasil que o inaugurava.
Nesta mesma ocasião inaugurou-se também a rêde
telefônica subterrânea da Capital e as linhas interurbanas, ligando
Florianópolis a: par o Norte - Biguaçú, Tijucas, Camboriú,
Itajaí, Brusque, Gaspar, Blumenau, Itoupava Seca, Indaial, Timbó,
Jaraguá do Sul, Hansa, Joinville, Parati e São Francisco -, para o
Sul - Estreito, São José, Palhoça, Santo Amaro da Imperatriz,
Paulo Lopes, Laguna e Tubarão.
À inauguração estiveram presentes: Dr. Antônio
Vicente Bulcão Vianna, Presidente do Estado; Dr. Fulvio Aducci, Presidente
eleito de Santa Catarina; Dr. Adolpho Konder, Senador; Dr. Heitor Blum, Prefeito
da Capital, entre outros.
Pouco à pouco, a C.T.C., com seus próprios recursos,
ia estendendo sua rêde, sempre por linhas físicas, por quase todo território
catarinense, como podemos notar no quadro abaixo e no quadro do anexo 6. Não
podemos deixar de chamar a atenção para duas cidades paranaenses -
Rio Negro e União da Vitória - que fazem parte deste último
quadro. Infelizmente, nada podemos dizer a respeito de suas presenças na
rêde intermunicipal de Santa Catarina e, consequentemente, da saída
da Companhia do território catarinense.
4. A HISTÓRIA DO TELEFONE EM SANTA CATARINA –
PARTE 3
Um dos lemas da Companhia era "ir de encontro às
necessidades de expansão do Comércio do estado em geral, tratando
de estender linhas e rêdes, apesar do encarecimento de todos os materiais
usados e da alta da mão-de-obra." Esta foi uma das razões que
a levou, em Setembro de 1940, fazer acôrdo de tráfego mútuo
com a Empresa Sul Brasileira de Eletricidades (EMPRESUL), que possuia, na época,
132,919 quilômetros de linhas e 617 aparelhos instalados, sendo, depois
da C.T.C., a maior empresa do estado, para resolver o intercâmbio de ligações
intermunicipais e urbanas da cidade de Joinville.
O encarecimento dos materiais, que na sua maioria eram importados,
e o alto custo da mão-de-obra, não foram as únicas causas que
dificultaram as atividades da Companhia. Por muitas vezes ela tinha trechos de sua
rêde apresentando defeitos de comunicação por causa dos contínuos
roubos de seus fios de cobre, sendo este metal o motivo da cobiça dos ladrões.
Para resolver este caso, passou a usar, então, fios de aço nos trechos
assaltados. Outras vezes não era só na rêde que sumiam fios
de cobre, no mercado eles também faltavam. Um dos maiores problemas da Companhia,
por volta dos anos 50, foram as dificuldades de conseguir licença de importação,
prejudicando assim, pela falta dos equipamentos, o bom funcionamento de todo o serviço,
mas eventualmente foram contornados. As tarifas telefônicas para os serviços
urbanos da Capital foram motivos de um outro problema. Por muito tempo a C.T.C.
pediu ao Governo que as revisasse, pois passados 30 anos, desde a assinatura do
contrato, em 5 de Dezembro de 1927, as tarifas continuavam as mesmas, isto é,
até 60$000 para as grandes casas de negócios e 25$000 para particulares.
A resposta para a solução deste caso veio em 5 de Novembro de 1956,
quando foi renovado o contrato, entre o Governo e a Companhia Telefônica Catarinense,
tendo a redação da Cláusula 21ª alterada, de maneira que
ficava:
"facultado à empresa concessionária dos serviços telefônicos
desta Capital, a periódicamente pleitear junto ao Governo do estado de Santa
Catarina, uma justa revisão das tarifas telefônicas desta Capital,
para atender a necessidade de melhoramentos e expansão desses serviços,
bem assim, quando ocorrer substâncial encarecimento dos materiais e da mão-de-obra."
Além de ter renovado contrato, a C.T.C. marcou sua presença na década
de 50, ligando o estado diretamente com o resto do Brasil e do mundo, através
da RADIONAL; e também de ter ligado, por microondas, pela primeira vez, Santa
Catarina diretamente com o Rio Grande do Sul, cumprindo assim o acôrdo firmado
entre os Governadores desses dois Estados na Conferência de Torres em 1956.
A C.T.C. não chegou a automatizar todo o estado, muito
menos, como já vimos, de ligá-lo todo. Depois de Florianópolis
ter sido a primeira do estado a receber uma central automática, somente 9
anos mais tarde, em 1939, foi instalada a segunda central em Santa Catarina, na
cidade de Blumenau. A automatização ocorreu paulatinamente, sendo
que em Dezembro de 1959, apenas existiam as seguintes centrais automáticas
instaladas pela Companhia, que ao todo representavam um total de 8.138 aparelhos:
Florianópolis, Estreito, Blumenau, Itajaí, Lages, Rio do Sul, Brusque,
São Francisco do Sul, Canoinhas, Tubarão, Porto União, Mafra,
Rio Negro (PR), Caçador, União da Vitória (PR), Laguna, Jaraguá
do Sul, São Bento do Sul, Videira, Curitibanos, Ibirama, Indaial, Tangará,
Palhoça, Praia de Cabeçudas, Balneário de Camboriú,
Biguaçú, Marcílio Dias, Rio Negrinho, Barra do trombudo, Joaçaba,
Capinzal.
Apesar de todos os esforços em manter e desenvolver o sistema telefônico,
a C.T.C. estava com seus dias contados. Com a aceleração do desenvolvimento
do estado, principalmente no setor econômico, se fazia necessário que
as comunicações telefônicas também se aperfeiçoassem
e se ampliassem na mesma intensidade, o que implicava em elevados investimentos,
quase impossíveis de serem realizados pela iniciativa privada. A Companhia
Telefônica Catarinense passou então a representar um entrave ao desenvolvimento
de Santa Catarina, e o Governo do Estado, consciênte da importância
da telefonia para a nova realidade catarinense, tomou a decisão de comprar
a Companhia.
Em 25 de Janeiro de 1969, em Assembléia Geral Extraordinária, os acionistas
da Companhia Telefônica Catarinense aceitaram a proposta do Estado e concordaram
em vender seus bens, equipamentos e instalações em serviço.
Em 2 de Abril, o Decreto Federal nº 64.301 (D.O.U. de 07/04/69), autorizou a
C.T.C. a vender seu acervo, assim como declarava caducadas as concessões
outorgadas a esta Companhia tão logo se efetuasse a transferência dos
seus bens ao Estado; dava ainda o prazo de 120 dias para que o Governo estadual
estruturasse a empresa estatal substituta, "ao mesmo tempo em que autorizava
a executar os serviços telefônicos anteriormente prestados pela C.T.C.
enquanto estivesse em processo de organização a empresa estatal."
Estas medidas só foram tomadas em 3 de Junho de 1969, quando do cenário
catarinense desaparecia a Companhia Telefônica Catarinense, mas não
seus feitos, e surgia a Companhia Catarinense de Telecomunicações
(COTESC), uma empresa de economia mixta, sob a forma de sociedade anônima,
criada através da Lei estadual nº 4.299, de 17 de Abril de 1969 e constituída,
definitivamente, em 14 de Julho de 1969, no Governo de Ivo Silveira, que, posteriormente,
em Setembro de 1974, no Governo de Colombo Salles, passou a denominar-se: Telecomunicações
de Santa Catarina S.A. - TELESC.
5. CONCLUSÃO
Aqui termino de digitar esta brilhante exposição
sobre a telefonia no Estado de Santa Catarina, feita por Claudia Gomes de Albuquerque,
em seu trabalho de Conclusão do Curso de História da UFSC em 1986.
Interessante notar que algo tão valioso históricamente, não
esteja sendo divulgado. Antes de encontrar este material, penei em localizar quaisquer
dados sobre a telefonia em Santa Catarina. Parece mentira, mas um feito de tamanha
importância para as comunicações no Estado de Santa Catarina,
foi abandonado... esquecido numa prateleira de biblioteca.
Há de se lembrar dignamente do Sr. Juan Ganzo Fernandez... um pioneiro em
tantos empreendimentos...
Também de seu filho, Juan Carlos Ganzo Fernandez, que foi o grande administrador
da telefônica aqui em Santa Catarina... de seus irmãos... Juan Edson
Ganzo Fernandez, Ramirez Ganzo Fernandez... e tantos outros colaboradores, entre
eles Adám Ganzo Duque, que, com sua coragem e obstinação, abandonaram
suas origens, suas famílias, para desbravar um novo desafio, num país
ou estado desconhecido.
Lograram êxito... trabalharam muito para que Florianópolis e todo o Estado
de Santa Catarina e Rio grande do Sul fizessem parte do Mundo Moderno... mas pagaram
um alto preço por suas ousadias.
Hoje, a família Ganzo é esparssa... estamos divididos entre Uruguai,
Rio Ganzde do Sul, Santa Catarina e Paraná... e não nos conhecemos...
Este é o preço pago pelos pioneiros da Telefonia, Petróleo, Rádio,
etc. Abdicaram dos seus para ajudar a tantos outros. Mas amaram o que fizeram...
tenho certeza, não se arrependeram.
O maior presente que estes empreendedores nos deram foi poder "falar",
falar com o mundo!
E por isso, hoje, na era da internet, precisamos divulgar suas histórias.
Não é justo que, tamanho sacrifício seja esquecido da memória
do povo catarinense e riograndense.
CONCLUSÃO
O desenvolvimento da telefonia em Santa Catarina até o surgimento da Companhia
Telefônica Catarinense foi mínimo e precário. Uma das razões
disso se deve ao pouco incentivo às iniciativas privadas por parte do Governo,
que não tinha claro as vantagens do emprego do telefone nos assuntos administrativos,
no comércio, na integração territorial e na indústria;
além de que nem todos tinham condições financeiras de usufruir
do serviço telefônico, o que fazia do telefone um símbolo de
status social daqueles que o possuiam. A mudança de visão do Governo
passou a mudar só em 1927, quando trouxe para Santa Catarina o Coronel Ganzo
Fernandez, um dos melhores técnicos da época no Brasil.
O pioneirismo do Cel. Ganzo, em estender linhas telefônicas por grande parte
do território catarinense, em implantar rêdes em várias localidades
e em modernizar o sistema, tudo com seus próprios recursos, efetivou o serviço
telefônico em santa Catarina e proporcionou um novo ritmo no desenvolvimento
do estado.
Com as dificuldades de aperfeiçoar e ampliar o sistema telefônico numa
velocidade compatível ao desenvolvimento do estado, com a revolução
de 64 e a Política de Segurança Nacional, a encampação
da C.T.C. em 1969 se fazia necessária. Porém, sua importância
para o estado, em 42 anos de atividade, foi incontestável.
Mauricio Ganzo Pereira
mauricioganzo@yahoo.com.br
Texto publicado em
http://familiaganzo.blogspot.com