O Telégrafo Harmônico
Em 1873 e 74, um escocês chamado Alexander Graham Bell fazia experimentos com um objetivo:
enviar notas musicais através da eletricidade. Mas por que será que alguém passaria
seu tempo tentando fazer uma coisa dessas? Bell fazia tal pesquisa, pois acreditava
que, se pudesse transmitir notas musicais, conseguiria também transmitir a voz das
pessoas. Você consegue pensar na importância que isso tinha na época? Não? É simples,
basta imaginar sua vida sem telefone... Tem gente que não consegue sequer se imaginar
sem celular! Já pensou se, a cada vez que tivesse que dar um recado a alguém ou
matar a saudade tivesse que ir até a casa dela? Ia ser bastante difícil, não acha?
Mas isso ainda não era o bastante, Bell queria, além de transmitir a voz das pessoas,
fazer mais de uma transmissão ao mesmo tempo. Será que ele queria demais?
Um senhor chamado Hermann von Helmholtz, achou que não, pois provou naquela época
que era possível sintetizar sons articulados a partir de notas musicais. Mas o que
isso significa afinal? Significa que diferentes notas musicais podem ser usadas
para enviar diferentes mensagens telegráficas ao mesmo tempo e por um único fio.
Essa era a mesma idéia que Elisha Gray , especialista em eletricidade e um dos fundadores
da empresa de telégrafos Western Electric Company tentava desenvolver. Ele dizia
que usando freqüências distintas, seria possível transmitir entre 30 e 40 mensagens
simultaneamente, através de uma única linha telegráfica, substituindo as inúmeras
linhas existentes entre as cidades, com grande economia.
Gray trabalhava na construção de um aparelho do mesmo tipo e era, portanto, um dos
maiores concorrentes de Bell que, apavorado com a idéia de ficar pra trás, escreveu,
em novembro de 1874, a seguinte mensagem: "É uma corrida pescoço a pescoço entre
o Sr. Gray e eu próprio para vermos quem completará um aparelho antes".
Essa mensagem foi escrita para Thomas Sanders e Gardiner Greene Hubbard , dois senhores
que conheceram, se interessaram e resolveram investir no projeto do "telégrafo harmônico",
pois perceberam que, se não conseguissem transformar o projeto do telégrafo em realidade
rapidamente, perderiam essa corrida, e com ela, muito dinheiro.
Hubbard, um homem bastante prático, percebeu como a idéia de Bell poderia render
dinheiro, e logo foi dar uma olhada no Escritório de Patentes de Washington (para
saber se alguém já tinha desenvolvido alguma coisa parecida ).
Não é que a idéia era realmente original! Ele não encontrou nenhum registro sequer.
Isso fez com que os dois novos parceiros de Bell decidissem de uma vez investir
no projeto, pois o primeiro a terminá-lo, seria o dono de sua patente , podendo
vendê-lo às empresas de telegrafia.
Hubbard, Sanders e Bell se associaram e, em fevereiro de 1875, criaram a empresa Bell
Patent Association , que colocava no papel o combinado que fizeram: Bell entrava
com as idéias, estudos e experimentos, Sanders e Hubbard com apoio, sobretudo financeiro,
dividindo os lucros em três partes iguais.
No meio dessa corrida contra o tempo, Bell vai a Boston e conhece uma fábrica de aparelhos
elétricos como dispositivos para telégrafo, campainhas elétricas, alarmes, etc.,
que pertencia a Charles Williams Jr., a quem Bell passou a pedir que lhe confeccionasse
uma infinidade de aparelhos.
Certo dia, Bell levou a Williams alguns de seus desenhos para que fossem construídos
modelos experimentais de seu telégrafo harmônico, e este encarregou Thomas A. Watson
desse trabalho.
Apesar de não ser o assistente de Sherlock Holmes, Watson ajudaria bastante na investigação
de Bell, pois tinha grandes conhecimentos sobre eletricidade e uma incrível habilidade
na construção de aparelhos. E foi assim que ambos se conheceram.
Mas afinal de contas... como o telégrafo funciona?
O telégrafo harmônico funcionava da seguinte maneira: um conjunto de eletroímãs ,
em forma de ferradura, produzia vibrações em pequenas lâminas de aço. Cada extremidade
desta ferradura prendia uma das pontas da lâmina de aço. Junto a uma das extremidades
dessa lâmina, havia também um contato elétrico. Quando o eletroímã estava ligado
a uma pilha, a lâmina de aço passava a ser atraída, separando-se do contato elétrico.
Quando este eletroímã era desligado, a lâmina voltava à sua posição inicial aproximando-se
do contato elétrico.
Quando a corrente elétrica do eletroímã passa pelo contato elétrico entre a lâmina
e o imã, ele se rompe. Esse rompimento é causado pelo próprio ímã, que corta a corrente
elétrica fazendo com que a lâmina volte para seu lugar, produzindo um novo contato.
Então, a lâmina é atraída até que seu contato se rompa e assim sucessivamente, até
que a pilha - geradora da corrente seja retirada ou se esgote. Essa vibração da
lâmina diante do eletroímã produz um zumbido, com diferentes freqüências , o que
depende do comprimento e da grossura da lâmina de aço.
Bell mandou construir vários sistemas desse tipo formando
pares idênticos. Cada um dos aparelhos construídos produzia um zumbido ou som, igual
ao emitido pelo seu par, porém, diferente dos sons produzidos pelos outros pares.
Complicado não é? Basta prestar um pouco de atenção e você entenderá tudo com "um
pé nas costas". Cada par de eletroímãs iguais formava um sistema de transmissão
e recepção de sinais elétricos. Bell esperava que quando um eletroímã produzisse
um som, se ligasse a um outro eletroímã idêntico. Esse segundo, também começaria
a vibrar, produzindo o mesmo som ou zumbido. Quando eletroímãs diferentes fossem
ligados entre si, um deles não faria o outro vibrar, ou seja, um não causaria interferência
no outro. Bell não tirou tudo isso somente da sua imaginação, mas sim de seus estudos,
nos quais conheceu um princípio da física que se tornou a base de suas hipóteses,
o da ressonância de oscilações. Se você quiser constatar esse princípio, faça o
teste: coloque dois violões idênticos e bem afinados, um na frente do outro. Se
tocar uma das cordas de um deles, a mesma corda, do outro violão começará a vibrar,
enquanto as outras continuarão paradas. Quando Bell pensou no telégrafo harmônico,
estava tentando produzir um fenômeno semelhante, porém com vibrações transmitidas
pela eletricidade, e não pelo ar.
Se isso desse certo, Bell colocaria um eletroímã de cada tipo de um lado e seus correspondentes
do outro, em um circuito elétrico. Ele esperava que, como aconteceu com o violão,
apenas o par certo de cada eletroímã entrasse em vibração do outro lado. Se isso
funcionasse, cada vibrador poderia ser manipulado por um telegrafista, possibilitando
a transmissão de várias mensagens ao mesmo tempo pelo mesmo fio, cada uma com uma
freqüência, sem que se misturem, sendo recebidas por diferentes aparelhos do outro
lado.
Como pudemos perceber, na teoria, tudo parecia perfeito, porém, depois que Watson
fabricou os dispositivos, o sistema ainda não funcionava. Com isso, Bell tentou
fazer uma série de modificações, as quais Watson seguia fielmente, ainda assim sem
sucesso.
O dia-a-dia de Bell era bastante cansativo, dava aulas durante o dia, e visitava a
oficina de Williams à noite. Enquanto trabalhavam, Bell contava a Watson suas idéias
- inclusive sobre seu projeto de transmitir vozes à distância.
Sem nunca esquecer o projeto de construir o telégrafo, Bell saiu em busca de interessados
em seu outro trabalho. Foi a Washington e conversou com Joseph Henry, um importante
físico especialista em eletricidade, que conhecia os aparelhos de Johann Philipp
Reis (possuía até uma cópia dele), que tinha bastante interesse no assunto. Ao contrário
de outras pessoas, Henry incentivou Bell a trabalhar com a transmissão da voz. Apesar
da falta de sucesso, Bell estava obcecado pelo trabalho e por isso, em março de
1875, decidiu parar de dar aulas. Tomou tal decisão para poder dedicar mais tempo
às suas pesquisas, o que lhe trouxe sérios problemas financeiros. Gastou todas as
suas economias, e precisou pedir dinheiro emprestado a seu amigo Watson.
Saiba mais sobre quem foi Reis.
Um jovem professor alemão chamado Johann Philipp Reis, construiu o primeiro "telefone"
elétrico que conseguiu transmitir sons. Este aparelho era muito semelhante ao telégrafo
- com um aparelho transmissor e um receptor. A novidade é que, ao invés de enviar
sinais batendo com o dedo sobre um interruptor, era a voz que fazia este aparelho
funcionar e com uma grande vantagem: os sons ouvidos no aparelho receptor tinham
a mesma freqüência do som que saia do aparelho transmissor.
Reis fez uma demonstração de seu aparelho diante da Sociedade Científica Alemã em
1861, em que foi possível ouvir uma música cantada por um cantor profissional que
estava a 100 metros de distância. No entanto, só era possível reconhecer a seqüência
de sons musicais, pois o aparelho não reproduzia nem as variações de intensidade
do som, nem as palavras cantadas, nem tampouco, as características da voz do cantor.
Com o aparelho de Reis conseguia-se distinguir a voz de um homem e de uma mulher,
além de reconhecer as notas musicais de uma melodia, porém, não era possível entender
uma só palavra.
Bibliografia
- MARTINS, Roberto - A Fundamentação da Telefonia através da História - Parte
1: Da Invenção ao Início do Século XX (pesquisa realizada para a Fundação Telefônica,
em 2002)
A Descoberta
Na tarde do dia 2 de junho de 1875, Graham Bell e Thomas Watson puseram-se a fazer
experiências para verificar o funcionamento do telégrafo harmônico . Cada um foi
para uma sala, no sótão da oficina de Bell. Watson, em uma delas, tratava de ligar
os diversos eletroímãs, enquanto Bell, na outra, observava o comportamento dos eletroímãs
de seu aparelho que deveriam vibrar estimulados pelo aparelho de Watson.
Como acontecera muitas outras vezes, a coisa não funcionou e para piorar, a lâmina
de um dos transmissores não vibrava quando ligada à pilha. Como essa lâmina parecia
estar presa, Watson começou a puxá-la e soltá-la para ver se assim, ela começava
a vibrar como deveria. Nisso, Bell ouve uma forte vibração no aparelho que estava
em sua sala, dá um grito e vai correndo perguntar a Watson o que ele havia feito.
Dando uma olhada na lâmina que estava com problema, Bell viu que um parafuso estava
muito apertado, impedindo que o contato elétrico gerado entre a lâmina e o eletroímã
fosse rompido, interrompendo a transmissão de pulsos elétricos para a outra sala.
Intrigado, Bell começou a quebrar a cabeça imaginando o que havia acontecido.
De repente, compreendeu que, quando a lâmina de aço vibrou diante do eletroímã, ela
induziu uma corrente elétrica oscilante na bobina do eletroímã e essa corrente elétrica
produziu a vibração no aparelho que estava na outra sala.
O princípio da física que explicava esse fenômeno não era novo. Michael Faraday
já havia demonstrado, quarenta anos antes, que o movimento de um pedaço de ferro
perto de um eletroímã podia criar vibrações elétricas do mesmo tipo. Porém, apesar
desse fenômeno já ser conhecido, foi só nesse dia que Bell percebeu que poderia
usá-lo para fazer o que tanto queria: transmitir a voz através da eletricidade.
Nesse mesmo dia, antes de ir para casa, Bell deu instruções a Watson para que construísse
um novo aparelho, adaptando o antigo dispositivo, com a finalidade de captar as
vibrações sonoras do ar e produzir vibrações elétricas.
Bibliografia
- MARTINS, Roberto - A Fundamentação da Telefonia através da História - Parte
1: Da Invenção ao Início do Século XX (pesquisa realizada para a Fundação Telefônica,
em 2002)
O Primeiro Telefone
Graham Bell e seu amigo Thomas Watson já tinham construído vários aparelhos e sempre
encontravam algum problema .
No dia 3 de junho de 1875, Watson, atendendo mais uma solicitação de Graham Bell,
da noite anterior, para que construísse um novo aparelho adaptando um dos antigos
dispositivo, construiu dois exemplares. Um deles era de uma estrutura de madeira
que tinha uma espécie de tambor mantendo todas as partes do dispositivo nas posições
corretas.
Devido ao formato dessa estrutura, esse dispositivo recebeu o apelido de "telefone
da forca".
A idéia de Bell era que ao falar próximo à membrana ela vibraria, fazendo a lâmina
tremer perto do eletroímã e induzindo orrentes elétricas variáveis até sua bobina.
Ele esperava que essas vibrações sonoras fossem reproduzidas igualmente na forma
elétrica que seria conduzida por fios metálicos até um outro aparelho idêntico,
fazendo-o vibrar e emitir um som semelhante ao inicial.
Para começar o teste, Watson e Bell colocaram os aparelhos
em lugares bem distantes; um no sótão e o outro no terceiro andar do prédio - dois
andares abaixo, ligados por um par de fios metálicos. À noite, Bell ficou no sótão
e Watson na sala do terceiro andar, tentando se comunicar através do aparelho. Por
mais que Watson falasse alto ou mesmo gritasse, Bell não ouvia nada, no entanto,
quando Bell falava em seu dispositivo, Watson ouvia alguns sons . Não que fosse
possível entender alguma palavra mas, certamente ele escutava alguma coisa.
Hoje é possível entender quais eram os problemas técnicos
desse primeiro aparelho. Um deles era a lâmina de aço, que deveria vibrar livremente
induzindo as correntes elétricas, mas que tinha, nesse aparelho uma de suas extremidades
presa, o que a impedia de acompanhar as oscilações da membrana. O outro problema
é que, para emitir sons com mais força, era preciso dimensionar o aparelho de maneira
mais adequada, levando em conta, por exemplo, as distâncias entre o eletroímã e
a lâmina. Enfim, era preciso aperfeiçoá-lo.
Apesar de todos esses avanços, Hubbard continuava a pressionar
Bell para que se dedicasse ao telégrafo harmônico, e não à transmissão de voz.
Bibliografia
- MARTINS, Roberto - A Fundamentação da Telefonia através da História - Parte
1: Da Invenção ao Início do Século XX (pesquisa realizada para a Fundação Telefônica,
em 2002)
A Patente
Em setembro de 1875, Graham Bell foi visitar seus pais no Canadá e enquanto esteve
lá, trabalhou na redação do pedido de patente de seu mais novo invento - um aparelho
de transmissão elétrica da voz. No final desse mesmo ano, voltou a Boston e alugou
dois quartos no andar superior de uma pensão. Dormia em um e fazia quase todos os
seus experimentos no outro, transformado-o em um verdadeiro laboratório, pois acreditava
que este era um lugar mais reservado. Mas por que Bell se preocuparia em manter
todo esse segredo? O projeto no qual trabalhava era muito valioso e, por isso, acreditava
que alguém pudesse querer roubar suas idéias. Todo cuidado era pouco, sobretudo
nessa fase final de desenvolvimento.
No início de fevereiro de 1876, Bell, percebendo a urgência de patentear seu invento,
mesmo antes que funcionasse perfeitamente, redigiu a versão final de seu pedido.
Hubbard, seu patrocinador e futuro sogro, prontamente levou o pedido a Washington
e entregou-o ao Escritório de Patentes no dia 14 de fevereiro.
Neste dia, apenas duas horas depois, Elisha Gray foi ao mesmo escritório depositar
um pedido preliminar de patente ("caveat") para um aparelho de transmissão elétrica
de voz bastante semelhante ao criado por Bell . Essas duas horas foram fundamentais
para que a patente fosse dada a Bell como inventor do telefone, ao invés de Elisha
Gray.
Não se sabe ao certo se Bell estava ciente de que Elisha tentaria patentear um invento
semelhante ao seu, porém, existem indícios de que Hubbard, sempre esteve bem informado
sobre os passos do concorrente.
Bibliografia
- MARTINS, Roberto - A Fundamentação da Telefonia através da História - Parte
1: Da Invenção ao Início do Século XX (pesquisa realizada para a Fundação Telefônica,
em 2002)